Em tempos de Pandemia vem à tona uma questão revestida de extrema importância social, ética e até trabalhista: “Quem Cuida dos Cuidadores?” De certa forma, todos somos cuidadores uns dos outros, ou num mundo melhor, deveríamos ser. Pais cuidam de filhos, casais deveriam cuidar-se mutuamente. Cuidar de familiar em processo de recuperação de uma enfermidade ou em uma situação terminal pode trazer insegurança, angústia e medo.
Vamos pensar agora naquelas pessoas que por profissão exercem o ato de cuidar e que optaram por ela por altruísmo, dedicação ou apenas por necessidade. Se acrescentarmos a esses ingredientes um risco de vida, está criado o caldo para que façamos uma reflexão sobre o importante tema.

Conhecemos muitas publicações sobre este tema que não é novo, mas quem iria, até agora, perder o seu tempo pensando nisso? Até que chegou o Covid 19 que fez emergir em toda a humanidade manifestações de reconhecimento, carinho e atenção que os cuidadores merecem, até sendo aplaudidos de janelas e sacadas do mundo em horários determinados, em uma ação nunca antes imaginada. Acostumamo-nos a assistir todos os dias as cenas de vestiários de hospitais onde médicos, enfermeiros, técnicos de toda a ordem e auxiliares, vestem-se com suas roupas e equipamentos de proteção que lhes permitiriam passear no espaço.Só que o espaço onde irão passar as próximas doze ou vinte e quatro horas, é o espaço que circunda um leito onde jaz, moribundo, um doente. A visão externa que adquire o cuidador munido de suas armaduras, nada tem de fashion. Por baixo de tudo aquilo existe
uma pessoa que hoje se tornou o foco de atenção de toda a humanidade e se encontra absolutamente entregue a cuidar do outro. Estressado, preocupado com a família que deixou para trás a fim de cuidar de um anônimo, às vezes cansados ao extremo pelos excessos de horas de trabalho, repetem todos os dias o mesmo ritual de chegar ao trabalho, vestir suas proteções, apanhar as armas e investir contra um inimigo invisível, dissimulado e letal. Irão controlar aquela vida diminuída, aplicar soros e medicamentos, instalar e regular respiradores que nenhuma utilidade teriam se não fosse o técnico atrás da maquina. É da natureza do cuidador sentir-se responsável pelo ente cuidado, dispensando-lhe a máxima atenção possível, mesmo num meio carente de recursos adequados disponíveis, o que colabora para aumentar insegurança , angústia e medo. Neste momento o cuidador está isolado, rompeu seus laços com o mundo externo, com graves consequências para a sua saúde mental e física. Os sentimentos humanos frente à doença foram ordenados e divulgados pelo clássico trabalho de Kubler-Ross ( Sobre a Morte e o Morrer – Ed Martins Fontes, 2002) ;primeiro a fase da raiva, depois a barganha, a depressão e a aceitação. O problema toma dimensões particulares quando o cuidador , seja formal ou informal ( familiares ) é atingido na fase da raiva e passam a apresentar a mesma reação, sentindo-se impotentes e frustrados por não alcançarem uma assistência adequada ao doente e de não poder curá-lo.

Neste cenário atual de tão grande pandemia, precisamos compreender a dinâmica que move o cuidador submetido a buscar o máximo do seu conhecimento e sua resiliência com efeitos devastadores sobre a sua saúde . A partir desta compreensão poderemos refletir sobre a questão colocada no título “ afinal, quem Cuida dos Cuidadores ?

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