Aplausos de janelas em horários marcados, certamente representam uma boa dose de reconhecimento e de carinho por parte da população para aqueles que estão na linha de frente do tratamento de pacientes acometidos pela COVID 19. Só que não são suficientes. Em 2006 o Conselho Federal de Medicina promoveu uma discussão nacional sobre o tema, que está publicado em dois números da Revista de Bioética vol. 14 som coordenação do competente médico gaúcho Délio José Kipper, Doutor em Medicina e à época Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. Os conceitos emitidos surpreendem pela oportuna aplicação ao momento atual da Pandemia que vivemos. Estratégias de atendimentos na área psicológica, assistência social, saúde física e mental, abrem um imenso leque de possibilidades que vão desde atendimentos individuais, em grupos, musicoterapia, até a criação de Grupos de Reflexão como espaços para Cuidar dos Cuidadores.

Estudantes de Medicina, desde o inicio do curso já podem ser considerados cuidadores. Sofrem com cargas horárias elevadas, bem como assumem responsabilidades para as quais nem sempre estão preparados. A doença e a morte até então elementos abstratos na vida do jovem, tornam-se presente em suas ações diárias. Gosto de repetir uma história relatada por Ivan Antonello, Professor ilustre da PUCRS, sobre o relato de uma jovem estudante de Medicina: “a escola médica é realmente misteriosa. É uma experiência forçada. Manuseamos cadáveres, temos aulas em laboratórios onde examinamos nossas próprias fezes, frequentamos hospitais de doentes mentais onde ficamos trancados com pacientes aos gritos.. São experiências extremas como ser iniciado em organizações secretas ou campos de treinamento militar .” Por tudo isso parece razoável considerar que o cuidado com os cuidadores deve ser iniciado nos primeiros anos das escolas médicas, de enfermagem ou de qualquer curso técnico que envolva profissionais da área médica assistencial. No Hospital São Lucas da PUC , seguindo modelos já existentes, criamos um Grupo de Reflexão composto por pessoas representantes de quase todas as áreas do Hospital, desde a Direção Geral até funcionários da higienização, além de médicos, enfermeiros e técnicos. Depois de 20 anos de atividades pudemos concluir que o Grupo de Reflexão pode ser um importante instrumento de análise e manejo do conteúdo emocional dos cuidadores. Facilitando as relações interpessoais dos funcionários de diferentes níveis, facilita-se a comunicação entre eles, minimizando crises nas relações , facilitando o aparecimento de capacidades individuais ou coletivas antes ocultas, atribuindo ao cuidador uma maior importância naquele cenário de preocupações, stress e angústia que o acompanham no dia a dia. Neste momento de Pandemia, onde há uma evidente necessidade de Cuidar dos nossos Cuidadores, é necessário lançar mãos de estratégias que os protejam e valorizem tornando-os melhores nas ações diárias contribuindo para que todos se tornem mais felizes.

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